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Lance Notícias | 14/09/2022 11:48

14/09/2022 11:48

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Centro Espírita de Umbanda Ogum 7 Espadas de Xaxim fala sobre caso de intolerância religiosa

Nesta terça-feira (13), a veiculação de uma notícia em Xaxim causou grande indignação por se tratar de mais um caso de intolerância religiosa. Nela, constava que havia sido realizado um “ritual de magia negra” na Cruz Mestra do Cemitério Municipal. No entanto, percebe-se a falta de conhecimento e entendimento sobre o ocorrido. Diante disso, a […]

Centro Espírita de Umbanda Ogum 7 Espadas de Xaxim fala sobre caso de intolerância religiosa Sacerdote Rogério Golembieski do Centro Espírita de Umbanda Ogum 7 Espadas de Xaxim (Foto: Patrícia Silva)

Nesta terça-feira (13), a veiculação de uma notícia em Xaxim causou grande indignação por se tratar de mais um caso de intolerância religiosa. Nela, constava que havia sido realizado um “ritual de magia negra” na Cruz Mestra do Cemitério Municipal. No entanto, percebe-se a falta de conhecimento e entendimento sobre o ocorrido.

Diante disso, a equipe de reportagem do Lance Xaxim buscou o sacerdote Rogério Golembieski do Centro Espírita de Umbanda Ogum 7 Espadas de Xaxim. Ele falou sobre o fato:

– Meu nome é Rogério Golembieski, sou sacerdote da religião Umbanda, sou dirigente espiritual do Centro Espírita de Umbanda Ogum 7 Espadas, em Xaxim e sou presidente, dirigente espiritual da federação Rosa Branca de Umbanda Independente. O ritual com a oferenda que foi feito no cemitério de Xaxim, quem fez fui eu. Conforme diz na reportagem, foi encontrado no domingo de manhã, mas está equivocado. A oferenda foi entregue na cruz mestra do cemitério no sábado, às 07h30. Se tiver câmeras por lá, eles podem conferir. O trabalho, conforme dá pra conferir nas fotos tem dois pratos de cerâmica e dentro tem pipoca, ameixa preta. Esse trabalho estava envolto em dois tecidos pretos, totalmente amarrados, nos quais é impossível ver o que tem dentro. Favor incluir a foto que te enviei comprovando. O trabalho é para proteção, principalmente para saúde, para tirar todas as energias negativas da pessoa. Ele estava amarrado em EVA justamente para não causar espanto nas pessoas que vissem e fazem o uso da cruz mestra. Esse trabalho estava amarrado por carinho e respeito a quem faz a limpeza do cemitério e não oferece perigo algum a eles, estava condicionado dessa forma para facilitar a limpeza depois. E como pode ser observar na imagem, está muito diferente da forma como foi divulgado na reportagem  –  diz.

Como Rogério deixou a oferenda no local

 

– O que aconteceu foi que fomos criticados por sermos a minoria. Existe uma falta muito grande de conhecimento sobre a cultura afro-brasileira e como se deu o desenvolvimento da sociedade brasileira e as raízes culturais do negro e do índio, então o que ocorreu sim, no nosso ponto de vista foi crime de intolerância religiosa, e não estamos aqui para dizer que vamos tomar providências legais, o que seria de nosso pleno direito mas para esclarecer e defender o direito dos umbandistas. Se não gosta da nossa religião, pedimos que nos respeitem da mesma forma que sempre demonstramos respeito pelas demais religiões. O ritual foi violado, fotografado, e  exposto de forma pública, causando escândalo. As pessoas que fizeram isso não levaram em consideração que tem uma comunidade que prestou serviço a mais de 20 mil pessoas nos últimos quatro anos atendendo principalmente a pessoas doentes. Quando se trata de práticas religiosas de matriz afro-brasileiras algumas pessoas se apressam em julgar de forma pejorativa e com relação ao ocorrido, ninguém consultou os praticantes das religiões afro-brasileiras da cidade, para se informar antes de divulgar o fato. Eu me coloco a total disposição de todos que queiram tirar dúvidas e esclarecer a respeito do ritual que foi praticado no sábado – continua.

Rogério ainda comenta sobre ter realizado o trabalho na cruz mestra:

– O Cemitério é chamado dentro da nossa doutrina como “Campo Santo”. O Cemitério é tido como um lugar onde o o sagrado habita e a cruz mestra simboliza não só o Cristo mas a porta de passagem para o plano espiritual. É justamente nesse local que cultuamos o Orixá das doenças que é sincretizado com São Lazaro. Nós temos um respeito imenso por aquele lugar e se nós acreditamos que a nossa doutrina pratica manifestação de espirito para a caridade, se nós acreditamos que a nossa religião pratica uma religiosidade tendo como base espíritos de luz, é uma coisa totalmente contraditória dizer que nós fomos lá para violar ou perturbar as pessoas que lá estão enterradas. Nesse cemitério está enterrado o meu pai, minha mãe, meus irmãos, meu cunhado, amigos, um monte de gente que eu amo. Nós quando entramos no cemitério pedimos licença para o espírito que protege a porta do cemitério e em hipótese alguma é permitido se aproximar do tumulo de alguém, pois é considerado santo, sagrado, porque nós acreditamos que o cemitério é o lugar onde as almas descansam e sabemos que se nós irmos lá perturbar essas almas, seremos perturbados por ela quando para lá formos levados no dia do nosso desencarne. Essa é a nossa crença! Nós não aceitamos a perturbação dos mortos. Agora, a cruz mestra para nós é a porta de passagem para o espírito que deixa o corpo e parte para o plano de luz, se nós saudamos o guardião da porta do cemitério, que é por onde o corpo físico é passado, dentro do cemitério o espírito sai do corpo e é levado para a cruz mestra onde ele fará a passagem para ser encaminhado pelos espíritos de luz para o plano superior por conta disso é que na cruz mestra são feitas as entregas e os pedidos de proteção e saúde e eu convido a todos para que venham conhecer o nosso espaço, a nossa doutrina. Volto a falar que quem fez o trabalho na Cruz mestra fui eu, no direito que a constituição me garante, pois o cemitério de Xaxim, como o cemitério de qualquer cidade não é propriedade católica evangélica ou de qualquer outra religião. A igreja católica tem uma capela para rezar dentro do cemitério e a constituição me garante que todas as religiões tenham o mesmo direito, mas imagina se a comunidade umbandista de Xaxim resolvesse fazer um culto umbandista lá, se esse trabalho que foi praticado totalmente dentro das leis já gerou toda essa polêmica imagina o que isso iria provocar? A comunidade umbandista tem os mesmos direito e prerrogativas que a lei determina para todas as outras religiões, no uso das minhas atribuições como sacerdote umbandista voltarei ao cemitério sempre que houver necessidade ritualística exercendo o direito que a constituição me garante. Quero ainda registrar a honra que foi viver a consideração que vocês do Lance Xaxim tiveram, de vir até o terreiro, dar a oportunidade de a gente falar sobre isso, o que demonstra a grandeza do trabalho de vocês e principalmente, a impessoalidade que vocês tratam os direitos humanos – enfatiza.

 

Sobre a Umbanda

Quando se fala de Umbanda, principalmente, do Centro Espírita de Umbanda Ogum 7 Espadas de Xaxim, é necessário saber que no local não existe sacrifício de animais, em hipótese alguma. Os pilares da religião são: o amor, a caridade e a humildade.

O espaço em Xaxim existe há mais de 40 anos. Todos que atuam no espaço não são remunerados, trata-se de trabalho voluntário e nenhum atendimento é cobrado. Rogério fala um pouco sobre a história da Umbanda no Brasil para melhor entendimento de todos:

– Essa casa existe desde a década de 80. A Umbanda não sacrifica animais, é proibido, e gostaria de enfatizar isso. Antes de Zélio não existia Umbanda, existia a macumba, que é um culto que existia no RJ, por conta dos descendentes dos escravos. Com abolição da escravatura, essas pessoas passaram a viver à margem da sociedade e esse povo foi viver no Rio de Janeiro, mas não tinha lugar para eles trabalhar e essas pessoas foram despejadas na rua, com isso, sem escolha, migraram para os morros, que era tudo mato. Lá, sem condições nenhuma, passaram a viver. Quando isso aconteceu, eles não tinham muita condição de trabalho, mas eram conhecedores dos mistérios das religiões africanas e isso possibilitava o comércio. Esse culto religioso era feito ao som dos instrumentos e um deles era tipo reco-reco e o nome desse instrumento era macumba. Eles falavam “vamos tocar macumba”, mas era o instrumento e as pessoas entendiam que era uma religião e assim foi batizado de forma popular. Isso é macumba, não tem nada a ver com magia negra. Em 1908, Zélio sofria de males que a medicina não conseguia explicar, pois tinha várias personalidades, foi levado para o centro kardecista no Rio de Janeiro e ele incorporou Caboclo das Sete Encruzilhadas e disse que vinha para fundar uma nova religião, pois negros e índios não tinham vez no catolicismo nem dentro do kardecismo. A Umbanda surgiu justamente para permitir que esses guias espirituais (negros e índios) tivessem onde trabalhar como cristãos. Pois, o catolicismo não aceitava muito bem essa questão espiritual, o kardecismo aceitava, mas não os consideravam espíritos evoluídos, o Candomblé só cultuava divindades e esses espíritos não queriam fazer parte da religião carioca, pois eram contra de dinheiro. A Umbanda é reconhecida por lei, pela constituição na lei 12.644 que institui o dia 15 de novembro como o Dia Nacional da Umbanda . Nós não sacrificamos animais, não fazemos trabalho em troca de dinheiro – comenta.

 

Conheça como é o terreiro em Xaxim:

 

 

Preconceito dentro das religiões

O preconceito ainda está enraizado na sociedade e falar sobre o assunto já é uma forma de romper barreiras. No entanto, muitos acabam praticando o crime de forma equivocada e Rogério explica melhor:

– A primeira religião que existia no Brasil era a Santidade, nativa dos indígenas, ela foi suprimida pelos colonizadores na base da violência. O catolicismo veio muito tempo depois, inclusive, absorveu vários elementos ritualísticos da cultura afro-brasileira. Por exemplo, vemos na missa que o padre pede ao coroinha para fazer uma defumação no altar, é uma pratica indígena e africana. Nós vemos na missa duas velas acessas no altar, mas as igrejas são bem iluminadas, ninguém se pergunta porque se acende a vela, porque se acende a vela para um santo católico, já começamos entrar no impacto que discriminação religiosa tem, pois, se eu acendo uma vela para o meu santo, eu faço macumba e se o católico acende a vela pro santo dele, ele está fazendo algo sagrado. Isso tudo está enraizado na consciência do brasileiro, pois ele sofreu impacto de várias culturas. Se você assistir um filme do Thor, ele é um deus da mitologia nórdica, o Deus do Trovão, dentro da cultura Afro, Xangô é o Deus do trovão, mas se fizer um filme de Xangô, talvez vai sofrer discriminação religiosa. Jesus, era judeu mas nas imagens ele é totalmente caucasiano, Maria santíssima assim como a maioria dos santos também, o Brasil nunca teve um santo índio, e nunca ninguém se perguntou porque numa vasta quantidade de santos existem tão poucos santos negros, o preconceito começa já nas pequenas coisas, por exemplo: O pombo branco representa o divino Espírito Santo e a galinha preta é referência da macumba. Quando falamos “Magia Negra” estamos falando de um preconceito de que coisa que não presta é coisa do negro. Quando se vê um judeu praticando cabala é uma coisa bacana, quando se fala do japonês com Heikki, se torna uma terapia holística, e eu não tenho nada contra isso, pelo contrário. Quando se vê uma pessoa fazendo hipnose, é bacana. Quando se vê alguém benzendo, até existe uma certa aceitação, quando se vê um médium incorporando o espírito do Saudoso Dr. Bezerra de Menezes, o qual se apresenta como um velho, se fala de espíritos de grande elevação, mas agora imagine um médium negro incorporando um espirito de um preto velho, escravo africano, há! Mas ai é já é espírito sem evolução e o ritual já é macumba e magia negra – explica.

Na Umbanda, inclusive no terreiro, foi possível conferir imagens de negros, índios e santos católicos. Quanto a isso, ele fala:

– As imagens no nosso altar, não são para serem cultuadas como deuses, elas representam a mesma coisa que quando eu tenho um porta retrato de um ente querido, um ancestral falecido. Quando um católico vai até um cemitério, acende uma vela e faz orações na Cruz Mestra para alguém que morreu, no nosso conceito, ele está praticando um ato espírita, pois o espírita acredita que a vida permanece após a morte do corpo físico, quando um católico faz uma festa em honra a Santo Antônio ou para qualquer outro santo, em uma determinada comunidade e após a missa, mata um boi e faz um churrasco para todo mundo, no nosso entendimento nós estamos tendo uma oferenda coletiva em honra ao santo, o que para nós é um ato muito bonito Mas, quando o povo de Axé faz uma festa a uma entidade e faz uma oferenda, qual é a impressão?para muitos  nós temos aí um ato de magia negra. Essa visão ainda existe, porque as pessoas na sua soberba europeia pensam que é dono da constituição brasileira, principalmente no artigo 5º que fala que “todos tem direito a livre manifestação religiosa”. É isso que está sendo ignorado – fala.

Rogério deu uma verdadeira aula sobre Umbanda e história e esta reportagem foi apenas uma pitada sobre essa religião que tanto sofre preconceito. Aos interessados em saber mais, ele convida para que participe dos encontros realizados toda a sexta-feira. Eles contam com facebook Centro Espírita de Umbanda Ogum 7 Espadas – Xaxim SC | Facebook e também com canal no Youtube, onde Rogério fala sobre a religião. Como mensagem final, ele enfatiza:

– Se Jesus, que foi o maior de todos os médiuns, que incorporou o próprio Deus, e não cobrou, quem é que tem moral para por um preço nos dons de Deus. Jesus disse “de graça recebestes dos dons de Deus, de graça dais”, essa é a nossa doutrina. Nós não estamos aqui para melhorar a nossa vida financeira, nós entendemos a vida como o fato de que somos espíritos eternos, vivendo uma curtíssima experiencia material, estamos aqui para melhorar o nosso espírito. Todas as pessoas que fazem parte da nossa casa trabalham, tem o seu sustento e ninguém é remunerado – finaliza.

Rogerio Golembieski é sacerdote de umbanda, fundador do segmento de umbanda independente, representou Xaxim no congresso de umbanda no PR, Representou Xaxim no Santuário Nacional de Umbanda em SP e é o autor do livro Rosa Branca de Umbanda, lançado em São Paulo no ano de 2013 pela editora ícone.

 

Atendimentos

De 2016 até 2020 mais de 20 mil pessoas haviam sido atendidas no local e agora, pós-pandemia os atendimentos foram retomados. Sendo cerca de 150 por sexta-feira. A entrega de ficha é feita entre 19h e 19h45min, com atendimentos de forma gratuita. Importante destacar, que a maioria das pessoas que procuram os atendimentos é em busca de solução de problemas de saúde, cura física, pois o local não realiza trabalho de amarração amorosa e outros pedidos considerados egoístas.

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